Por que não instituir o “Isolamento Vertical”?

Não é mais sábio isolar apenas os grupos de risco e os que apresentarem sintomas?
Bem, inicialmente parecia uma boa idéia. E inclusive esse era o plano do Reino Unido até o dia 16 de Março (contrariando o resto dos países europeus), quando um estudo científico requisitado pelo governo e pela OMS foi publicado. Esse estudo mostrou que essa abordagem, embora tenha sim efeito prático, é insuficiente em prevenir o colapso do sistema de saúde. Caso continuado o isolamento vertical no Reino Unido (população 66 milhões, menos de 1/3 da Brasileira), 250.000 pessoas morreriam exclusivamente devido ao COVID19. No gráfico abaixo você pode ver que isolamento vertical atrasaria o pico e achataria a curva de casos que precisam de UTI, mas de forma absolutamente insuficiente. Seriam necessários pelos menos 8x mais leitos de UTI do que os existentes no país, e isso é algo totalmente impossível de ser atingido em um curto espaço de tempo.

Mas leitos de UTI não é o único problema…

Em um sistema de saúde trabalhando abaixo de sua capacidade máxima:

De cada 100 pacientes COVID19
-80 terão apenas sintomas leves
-20 precisão de hospitalização

De cada 20 pacientes COVID19 hospitalizados
-15 precisam de oxigênio em enfermaria/sala de emergência/semi-intensiva
-5 precisam de ventilação mecânica em UTI

De cada 5 pacientes COVID19 em UTI
-3 sobrevivem
-2 morrem

Todos estão falando da falta de ventiladores/leitos de UTI suficientes para atender a demanda. Outros já aceitaram a morte dessas milhares de pessoas como um algo triste mas necessário para se evitar o colapso econômico e social do país. Porém os cálculos de mortalidade feitos até aqui se baseiam nessas estatísticas de gravidade clínica citadas. Mas ao chegarmos ao previsto colapso completo do sistema de saúde (mais de 8 vezes mais pacientes que o número de leitos disponíveis no caso do isolamento vertical), podemos esperar o seguinte cenário:

  • Leitos de UTI terão inicialmente baixa rotatividade, já que o mesmo paciente para se recuperar necessita de em média >14 dias de ventilação Mecânica/UTI;
  • Com UTIs completamente lotadas para se tentar ao máximo salvar esses pacientes (lembre-se que eles possuem 3/5 [60%] de chance de cura se bem tratados na UTI), agora teremos vários dos que não tiveram vaga nas UTIs ocupando as vagas de enfermaria, recebendo cuidados inadequados para sua gravidade. Esses pacientes que antes teriam uma chance de 60% de se curar, agora muito provavelmente terão uma chance de >90% de morrer.
  • Os pacientes hospitalizados porém menos graves (que superam numericamente os pacientes críticos em 3:1), que precisariam apenas de oxigênio por 6-8 dias, agora não terão acesso a essa medida simples e eficaz. Uma parcela significativa desses pacientes (>50%?) então progredirá de casos moderados para casos críticos, tanto por insuficiência respiratória quanto por descompensação de doenças de base por baixa oxigenação do sangue (Infarto, AVC, Insuficiência Renal Aguda, etc..). Todas essas situações necessitam de leitos de UTI e equipes especializadas, que estarão completamente incapazes de prover os cuidados necessários para manejos de complicações clínicas ainda mais graves que as do COVID19.
  • Neste cenário caótico, é de se esperar que a mortalidade suba muito rapidamente. Se anteriormente a cada 20 hospitalizados, 2 morriam. Agora, teremos certamente 5-10 mortes para cada 20 hospitalizações. E a medida que o caos progride e os pacientes continuam a chegar, essa proporção deve aumentar ainda mais, especialmente com equipes de saúde se contaminando acidentalmente e tendo que ficar isolados em casa por 14 dias.
  • Para ampliar o número de ventiladores disponíveis, salas de cirurgia (que possuem ventiladores utilizados durante anestesia geral) são convertidas em leitos de UTI. Isso impede obviamente sua utilização como sala de cirurgia, e cirurgias eletivas são canceladas. Mas e o que acontece quando temos cirurgias de emergência? E mesmo que tenha salas abertas, para onde irão esses pacientes de cirurgia de emergência após o procedimento cirúrgico?
  • Portanto a medida que o caos progride, a mortalidade geral sobe e bastante. E com ela sobe também a mortalidade (antes muito baixa) em atendimentos a doenças não relacionadas ao COVID, como acidentes de trânsito, doenças cardiovasculares, cirurgias abdominais e cirurgias oncológicas, justamente por falta de suporte de alta complexidade.
  • Ao termos tanta gente internada nos hospitais do país com o mesmo quadro, é de se esperar que os mesmos medicamentos e insumos sejam necessários. Embora COVID19 seja causado por um vírus específico, após alguns dias hospitalizados os pacientes em deterioração clínica receberão tratamento com combinações de antibióticos de amplo espectro. Além disso precisarão de anticoagulantes para evitar problemas de coagulação/tromboses, até porque terão mobilidade extremamente restrita em hospitais completamente lotados. Não haverá doses suficientes desses medicamentos para que tratemos tanta gente com o mesmo diagnóstico ao mesmo tempo. E ao faltar qualquer medicamento essencial, novamente veremos aumento de mortalidade.

Se você acha que esse cenário é muito ruim e apocalíptico, é porque é mesmo. Se não fosse, não teríamos as maiores economias do mundo fechando fronteiras, parando todo o comércio e indústria e recusando o dinheiro que turistas trazem. Se você ainda achar que a situação não é tão grave assim….. talvez tenha algo errado contigo.

Fonte:
1) Report 9: Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand (16/03/2020) [https://www.imperial.ac.uk/…/Imperial-College-COVID19-NPI-m…]

[Texto originalmente publicado no Facebook em 26/03/2020: https://www.facebook.com/rparolin/posts/10157711963435568]

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