Para sairmos do isolamento social teremos que sacrificar nossa liberdade e privacidade

É compreensível que a população esteja questionando quando finalmente poderão voltar as suas vidas normais. No entanto, não é difícil imaginar que apenas uma minúscula parcela da população geral já teve contato com o SARS-Cov-2 e, portanto, sair do isolamento levará a uma explosão de novas infecções entre a população que ainda não apresenta qualquer grau de imunidade ao vírus. Essa é a tão falada “segunda onda”, como vocês podem ver na figura abaixo, derivada do Report 9 do Imperial College London.

Modelagem matemática do efeito esperado de diferentes intervenções sociais (graus de isolamento/”quarentena”) no número de leitos de UTI necessários para atender pacientes exclusivamente COVID19. A curva verde refere ao que no Brasil chamamos de “isolamento horizontal”: distanciamento social de 70% da população, além de ótimas taxas de isolamento de pacientes sintomáticos e de todos que residam no mesmo domicílio e fechamento de escolas e universidades. A área sombreada iniciando na última semana de março indica o período no qual essas medidas sociais estariam em vigor (5 meses de isolamento de idosos, 4 meses para o restante).
Visão ampliada da parte inferior do gráfico anterior.

Assumindo transmissão comunitária significativa, a única forma do nosso de qualquer sistema de saúde ter capacidade para atender esse gigantesco número de pacientes é implementar as medidas sociais referentes a curva verde dos gráficos acima. No entanto, quanto mais agressivo for o achatamento da curva, maior a fração populacional de suscetíveis (não-imunes), e maior será a segunda onda quando o isolamento for revogado (na ausência de outras formas de contenção). Portanto, não é novidade para ninguém que as atuais medidas de isolamento não são uma solução, e sim um remendo temporário com a finalidade de nos ganhar tempo para ampliar e equipar nossos sistemas de saúde, ampliar nossa capacidade de realizar testes diagnósticos, desenvolver pesquisas e testar possíveis terapias e vacinas.

Para se evitar uma segunda onda ao sairmos do isolamento social, precisamos ter capacidade de rapidamente detectar, tratar e isolar novos casos; colocar em quarentena familiares ou outras pessoas que residem no mesmo domicílio; buscar, testar e isolar contatos recentes. Isso pode parecer simples, mas não é. E mesmo que façamos toda a parte técnica, esse sistema de “contact tracing and isolation” necessita que de fato as pessoas identificadas respeitem e mantenham isolamento por 2 semanas ou mais. Não é esse isolamento meia-boca que temos visto no Brasil, onde pessoas suspeitas não estão trabalhando, mas continuam indo a padaria ou ao mercado. Para que funcione, o isolamento de confirmados e suspeitos é total: não sair de casa nem para ir ao mercado, ter todas as suas compras deixadas em sua porta por um familiar ou amigo e nenhum tipo de visita ou saída é permitida. Dada a conhecida teimosia em seguir regras de grande parte da população brasileira, será certamente necessário o uso de forças de segurança (e possivelmente alterações na legislação) para garantir que esse nível de isolamento seja possível para um número considerável de brasileiros. Além disso, suporte financeiro e garantias trabalhistas serão necessários para todos que forem ordenados a se isolar.

Um estudo recente publicado na Science estimou que a fração de pessoas contaminadas por pessoas assintomáticas ou pré-sintomáticas é de ~50%. Ou seja, sem busca ativa de contatos e isolamento “profilático” desses indivíduos, não temos chance de quebrar a cadeira de transmissão do vírus, o que inevitavelmente levará a continuidade de sua progressão geométrica e, em certo momento, colapso do sistema de saúde.

O mesmo estudo simulou o impacto de diferentes “níveis” de isolamento de sintomáticos e de quarentena de assintomáticos na disseminação do vírus.

Eixo horizontal é a eficiência em se isolar casos sintomáticos suspeitos/confirmados, eixo vertical é a eficiência em se identificar e colocar em quarentena os contatos de casos suspeitos/confirmados. Da esquerda para a direita são diferentes simulações desses cenários assumindo um atraso de 3, 2, 1 e 0 dias (respectivamente) entre a identificação de um caso suspeito/confirmado e o isolamento/quarentena deste caso e de seus contatos. A linha preta contínua indica o provável limiar para controle da transmissão e as linhas tracejadas indicam a incerteza desse limiar. Regiões acima e a direita da linha preta indicam controle da epidemia, enquanto regiões abaixo e a esquerda da linha preta indicam propagação da epidemia. Quanto mais vermelho mais a epidemia se alastra, quanto mais verde mais rapidamente ela é contida.

Podemos analisar na imagem acima que uma estratégia manual de busca de casos (assumindo 3 dias entre a identificação do caso índice e o isolamento deste e de seus contatos) é absolutamente insuficiente para se controlar a epidemia. Se pudéssemos fazer esse processo mais rápido, em 1 ou 2 dias, ainda precisaríamos de um nível irrealista de eficiência no isolamento/quarentena de casos e contatos. Por outro lado, uma estratégia que permita detecção e isolamento instantâneo de casos e contatos tem chances de funcionar, mesmo que consigamos apenas ~70% de eficiência. Para isso é necessário o uso intensivo de tecnologia, e é imprescindível que praticamente toda a população tenha que ser monitorada. Existem várias opções sendo discutidas, e algumas já implementadas em países como Coréia do Sul, Cingapura e Taiwan. Essas idéias revolvem no conceito de um aplicativo (ou possivelmente diretamente pelo sistema operacional dos smartphones) que registra toda a sua movimentação por GPS/antenas/bluetooth e envia em tempo real esses dados para que as autoridades de saúde possam cruzar com a movimentação dos últimos 4-7 dias de pacientes recentemente diagnosticados. Isso requer não apenas monitoramento em tempo real de toda a população, mas também o armazenamento de todo o histórico da movimentação de cada aparelho pelos últimos ~7 dias. A figura abaixo dá uma idéia de como um sistema desses funcionaria.

Indivíduo (A) está infectado mas ainda não desenvolveu qualquer sintoma. Ele sai da casa onde vive com sua esposa, usa transporte público, vai ao trabalho e retorna a sua casa. No dia seguinte acorda com febre e, via aplicativo específico, avisa as autoridades de saúde, que imediatamente indicam isolamento e solicitam que uma equipe vá até sua casa para realizar teste rápido, que confirma COVID19. Imediatamente o sistema encontra todos os indivíduos que entraram em contato próximo com este paciente, envia uma ordem de quarentena por 14 dias para cada um deles e envia equipes de saúde para que realizem testes rápidos e descontaminação dos ambientes pelos quais ele passou. Ficção científica? Não, isso não só é possível como já é realizado em países asiáticos e está em testes em alguns países ocidentais. Infelizmente, se quisermos voltar a algum semblante de normalidade, precisaremos deixar para trás uma parte significativa de nossas vidas e de nossas liberdades individuais.

Exemplo de Cingapura. https://www.straitstimes.com/tech/singapore-app-allows-for-faster-contact-tracing
Contract tracing graphic
https://www.bbc.co.uk/news/technology-52246319

Fontes:
1) Report 9 – Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand [https://www.imperial.ac.uk/mrc-global-infectious-disease-analysis/covid-19/report-9-impact-of-npis-on-covid-19/]
2) Quantifying SARS-CoV-2 transmission suggests epidemic control with digital contact tracing [https://science.sciencemag.org/content/early/2020/04/09/science.abb6936]

2 comentários em “Para sairmos do isolamento social teremos que sacrificar nossa liberdade e privacidade

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